O Coentro na Perfumaria: A Especiaria com Facetas Cítricas

Frequentemente confinado à cozinha, o coentro é, no entanto, uma matéria-prima fascinante para o perfumista. Ao mesmo tempo aromático e especiado, possui uma dupla personalidade: divisivo quando fresco, torna-se subtil, vibrante e elegante depois de seco e destilado.
Botânica e Origens
Nome botânico: Coriandrum Sativum.
Planta umbelífera herbácea com 20 a 80 cm de altura, originária do Médio Oriente, o coentro é hoje cultivado na Europa e na Rússia. Esta erva de folhagem fina, flores insignificantes e frutos típicos redondos e bastante grandes, encontra-se principalmente nos prados e nos campos.
Também é chamado de salsa chinesa ou salsa árabe. Pertence à família da cenoura (Apiáceas). Todas as partes desta planta são comestíveis: folhas, sementes, raízes, embora o seu sabor seja diferente. As folhas têm um odor ligeiramente anisado, as sementes e raízes têm um sabor a casca de laranja.
Existe um contraste impressionante entre a planta fresca e a semente seca. Fresco, liberta um odor particular de percevejo-da-madeira (a palavra coentro deriva, aliás, do grego koris que significa percevejo). O seu perfume torna-se muito melhor após a secagem das sementes, perdendo essa faceta para conservar apenas a elegância especiada.
Descrição Olfativa: Uma “Especiaria Fria”
Na perfumaria, o coentro é classificado entre as especiarias frescas (ou frias), por oposição às especiarias quentes como a canela ou o cravinho.
O seu odor é um odor cítrico muito ascendente, fresco, alimonado, ligeiramente canforado, seguido de uma ligeira nota anisada e de uma nota florida especiada. Esta proximidade com a bergamota e a alfazema explica-se pela sua composição química.
O seu constituinte principal é o linalol (cerca de 60 a 70%). É esta molécula que lhe confere os seus acentos tónicos e aéreos, permitindo fazer a ligação entre as notas de topo hesperidadas e as notas de coração florais ou especiadas.
História, Lendas e Usos
Encontram-se vestígios do coentro nos túmulos dos faraós e, na Idade Média, era utilizado para afastar os demónios: um punhado de coentro no fogo. Carlos Magno apreciava-o pelas suas propriedades bactericidas e, mais tarde, chegou a ser considerado uma planta afrodisíaca. Quantas virtudes!
Fora da perfumaria, é um dos componentes principais do caril, aromatiza o gin, a chartreuse e o chili.
A anedota dos “Sugar Drops”
Durante a Segunda Guerra Mundial, estando os produtos em bruto racionados, foram então criados os “sugar drops”, sementes de coentro envoltas em açúcar branco ou rosa, que se lançavam à multidão como “confettis” durante os raros momentos de festividade, nomeadamente durante o carnaval. Uma guloseima improvisada que testemunha a importância cultural desta semente.
O Coentro nos Perfumes
A essência de coentro é obtida por destilação a vapor de água das sementes secas. Confere vivacidade, nervosismo e uma elegância apimentada às composições.
Encontra-se em muitos perfumes, sobretudo masculinos, mas também em grandes chipres femininos. Está presente em quantidade significativa em Héritage de Guerlain, onde confere uma vibração especiada desde as primeiras notas.
Alguns perfumes emblemáticos que contêm coentro:
- Héritage de Guerlain
- L’Instant pour Homme de Guerlain
- Habit Rouge de Guerlain
- Coco de Chanel (onde matiza as flores opulentas)
- Drakkar Noir de Guy Laroche
- Déclaration de Cartier (um coentro muito presente, associado ao cominho)
- Gentleman de Givenchy
- Coriandre de Jean Couturier (um chipre de culto dos anos 70)