A Faceta Hesperidada: Guia completo das notas cítricas (Citrus)

Cada fragrância é constituída por diversos componentes que formam o “acorde”. O acorde principal vai definir toda a essência do perfume, a sua “alma”, e permite organizar os perfumes em 6 famílias olfativas (segundo o Comité Français du Parfum – CFP): a família dos hesperidados, dos florais, ambrados ou orientais, dos chipres, dos amadeirados, dos fougères. Este acorde, ou tema principal, poderá ser revestido de várias facetas (quanto mais numerosas forem, maior será a complexidade do perfume), entre as quais a faceta hesperidada.

Fotografia de natureza morta luminosa e tónica mostrando os ingredientes-chave da família hesperidada: bergamotas, limões, laranjas e cascas em redor de um frasco de perfume fresco, ilustrando as notas cítricas.

A pirâmide olfativa e a faceta hesperidada

Se os perfumes tendem a evocar o sonho e a suscitar emoções, é importante saber que assentam, no entanto, em noções científicas e físicas rigorosas. Com efeito, um perfume é complexo, refinado e delicado, e representa sobretudo um conjunto de notas escolhidas pelo seu carácter efémero ou, pelo contrário, tenaz.

Uma fragrância é muito frequentemente representada sob a forma de uma pirâmide olfativa cuja ponta é constituída pelas notas de topo, a parte intermédia pelas notas de coração, e a base pelas notas de fundo. Este esquema parece simples e pedagógico, mas é na realidade muito mais complexo do que aparenta. Com efeito, as notas entrelaçam-se umas com as outras, respondem-se e sublimam-se mutuamente.

A família hesperidada

Os hesperidados constituem a família mais antiga da perfumaria.

A faceta hesperidada, ou família hesperidada, está presente em quase todos os perfumes. Reveste o perfume com notas de topo, é volátil, portanto pouco tenaz, e confere o sorriso aos perfumes.

A faceta hesperidada reveste tanto os perfumes femininos como os masculinos, e encontra-se naturalmente em maior quantidade nas Eaux de Cologne ou nas águas frescas. A faceta hesperidada torna-se então o tema principal e determina assim a família à qual o perfume pertence, ou seja, a família hesperidada.

Os hesperidados, tais como o limão, a bergamota, a laranja ou ainda a toranja, proporcionam a primeira impressão ao perfume, também chamada “o sorriso”, ou “a ascensão”, oferecendo aromas frescos e tónicos.

As notas hesperidadas são compostas por citrinos e não devem ser confundidas com as notas frutadas, que são à base de pêssego, maçã, pera e frutos vermelhos, entre outros. (cf. Frutos). As notas frutadas provocam, por sua vez, um “efeito olfativo” diferente na fragrância.

Origem do nome “hesperidada”

Os hesperidados devem o seu nome às três ninfas, filhas de Atlas e de Hespéris, encarregadas de velar pelo jardim dos deuses. Este pomar fabuloso escondia no seu seio maçãs de ouro (laranjas) que representavam a imortalidade e a fecundidade, ferozmente guardadas pelo dragão de cem cabeças, estes hesperidados que Héracles viria a roubar.

Esta lenda grega deu o nome à faceta hesperidada. Esta última reúne todas as notas cítricas com a frescura e o dinamismo tão característicos. Esta faceta pode também ter a designação de “Citrus” noutras classificações. As notas cítricas são todas produzidas a partir do óleo essencial contido na casca dos frutos.

A faceta hesperidada e os seus citrinos

Eis os principais citrinos utilizados nos perfumes pertencentes à faceta hesperidada:

A Bergamota

O nome “bergamota” viria do turco “beg-armûdi”, que significa “pera do senhor”. Diz-se igualmente que a bergamota deve o seu nome à cidade de Bérgamo, onde foi cultivada originalmente.

Este citrino provém da bergamoteira, uma árvore cultivada há 600 anos na Calábria (na região de Reggio di Calabria), no sul de Itália. Produz as bergamotas, frutos com uma pele esverdeada, quase amarela.

A polpa não é consumida por ser demasiado amarga, e apenas a casca da bergamota é utilizada em perfumaria. Este fruto resulta de um cruzamento natural entre o limoeiro e a laranjeira-amarga.

As cascas das bergamotas frescas, quase maduras, são extraídas a frio, com o auxílio de enormes prensas. O sumo das bergamotas, qualificado de essência ou óleo essencial, é depois libertado destas prensas (chamadas machina). O produto obtido é verde-escuro, o seu aroma é delicioso e muito facetado (cf. A expressão).

Esta essência será depois tratada e a sua cor passará do verde-escuro ao amarelo-pálido. Os componentes fototóxicos, como os bergaptenos, tinham tendência a provocar numerosas manchas na pele (sobretudo quando a essência tinha sido incorporada em produtos solares como o Bergasol) (cf. Perfume para o verão).

Atualmente, estes bergaptenos são retirados da essência de bergamota e de todos os outros citrinos. Refira-se que, para produzir um quilo de essência ou óleo essencial, são necessários 1 500 kg de frutos.

A bergamota é considerada a flor e nata dos hesperidados. Possui, com efeito, uma nota extremamente elegante, facetada e frutada. A sua nota é igualmente verde, ligeiramente floral e ácida, até amarga, mas também doce e redonda.

É o citrino mediterrânico por excelência, símbolo de frescura, cujo aroma é ao mesmo tempo frutado, floral, acidulado, suave e explosivo. A bergamota é a nota favorita do perfumista e o seu aroma é um perfume por si só. Contudo, como em qualquer produto natural, a sua qualidade depende da forma como foi cultivada, tratada e assemblada.

É também possível isolar os constituintes principais da bergamota (moléculas sintéticas) no seu eflúvio (acetato de linalilo e linalol), que lhe conferem uma nota muito fresca, comum à lavanda.

O nome bergamota viria do turco “beg-armûdi”, que significa “pera do senhor”. Diz-se igualmente que a bergamota deve o seu nome à cidade de Bérgamo, onde foi cultivada originalmente.

A bergamota é também utilizada noutros produtos: os rebuçados de bergamota são a especialidade de Nancy e certos aromas do chá Earl Grey beneficiam destes sabores deliciosos. A casca deste citrino foi também muito utilizada no século XVIII para a realização de sumptuosas caixas decoradas, que se podem admirar no museu internacional da perfumaria de Grasse.

A communelle

Uma communelle é uma assemblagem criteriosa de diferentes lotes de uma essência natural, criando um “standard”, com um aroma muito preciso. Isto permite, antes de mais, obter uma identidade forte, conferir um selo olfativo aos perfumes e igualmente assegurar, de ano para ano, uma qualidade constante e homogénea.

O comprador de matérias-primas e o perfumista podem selecionar nestas communelles citrinos verdes ou citrinos mais maduros. O aroma da assemblagem será assim bem diferente consoante a seleção realizada. Aliás, muitas communelles provêm de frutos adquiridos junto de diferentes cultivadores que possuem parcelas em Reggio di Calabria.

Shalimar de Guerlain, o “grande oriental”, contém na sua fórmula 30% de bergamota, contrastada com aromas orientais (cf. A família oriental) e sensuais (notas de baunilha, resinas, incenso, opoponax (cf. Bálsamos).

A laranja doce

A laranja doce, originária da China, chega-nos hoje da Florida e do Brasil. O seu aroma é exatamente semelhante ao do sumo de laranja. É o citrino mais cultivado no mundo e 60% da produção de sumo de laranja, bem como da essência de laranja, são assegurados pelo Brasil na província de São Paulo. É um estimulante que desperta as narinas. A laranja doce utiliza-se em diferentes suportes.

A laranja bigarade ou laranja amarga

A laranja bigarade, dita “amarga”, é mais facetada do que a laranja doce; provém de uma árvore, a laranjeira-amarga, que se encontra na Tunísia ou em Itália. O seu aroma está mais ligado à sua casca do que à sua polpa. Três outros produtos nascem desta árvore mágica: o petit grain (que provém frequentemente do Paraguai) e, nas notas florais, o neroli e o absoluto de flor de laranjeira.

A tangerina

A tangerina é uma nota hesperidada muito ensolarada. Este citrino possui mais carácter do que a bergamota. É igualmente mais amargo e mais verde. Esta nota é também mais marcante, pois o seu aroma está impregnado da casca do citrino. Por fim, a tangerina confere um grande sorriso ao perfume. Possui uma nuance medicinal característica e, por isso, assina verdadeiramente uma composição.

Existem diferentes variedades de tangerinas: a essência primeira é dita verde, depois amarela e finalmente vermelha. Este citrino é originário da China, o seu nome proviria da cor das vestes usadas pelos mandarins e foi introduzido na Europa muito mais tarde do que a laranjeira. A tangerina está essencialmente presente em Itália e no Brasil. O nome Tangerine dado nos EUA proviria da cidade de Tânger, em Marrocos, onde a cultura é intensiva.

A essência de tangerina é obtida da mesma forma que a bergamota, por expressão: a casca é triturada pelas máquinas que recolhem o precioso néctar que contém.

A tangerina é uma nota muito presente no perfume L’Instant De Guerlain, desenvolvido com o perfumista Maurice Roucel e criado em colaboração com Sylvaine Delacourte. Este perfume feminino de flores brancas exóticas compõe-se de jasmim, tuberosa, magnólia, com um fundo sensual e oriental constituído por notas avanilhadas (criadas com a resina de benjoim) e sândalo.

A tangerina harmoniza-se particularmente bem com as flores brancas, especialmente a flor de laranjeira.

O nome “tangerina” é originário da China: o fruto era outrora oferecido como presente aos Mandarins durante as festividades.

A clementina

Este citrino utilizado nos perfumes hesperidados possui um aroma muito próximo do da tangerina. O Irmão Clément, um padre branco originário da Argélia, conseguiu criar uma espécie de tangerina sem sementes, daí o nome de clementina. O aroma da clementina é igualmente mais sumarento do que o da tangerina. Trata-se de um cruzamento entre a tangerina e a laranja. Sumarenta e efervescente, harmoniza-se bem com certas notas frutadas.

O yuzu

O yuzu é um pequeno limão amarelo japonês muito dispendioso, mesmo quando adquirido localmente. Existem poucas produções de yuzu e apenas algumas marcas confidenciais o podem utilizar natural nas suas fragrâncias.

Com efeito, a produção japonesa de yuzu não poderia suportar um grande lançamento internacional. Por conseguinte, certas marcas só podem utilizar uma “reprodução” do citrino.

Os yuzus são citrinos requintados e complexos. Possuem um aroma multifacetado, comparável a uma mistura de vários citrinos, com a nota de tangerina como dominante. Trata-se aqui de um aroma distinto.

No Japão, o yuzu é também utilizado nos chás, nos lavadores de dedos e nos sorvetes, para acompanhar os sashimis, ou ainda para relaxar num banho quente.

A lima

A lima é um pequeno limão de pele verde e lisa, cujo perfume evoca, contudo, uma cor amarelo-alaranjada. Tem a particularidade de lembrar o sabor da Coca-Cola. Certamente já a provou em certos pratos, ou na famosa caipirinha.

Este citrino possui relevo e carácter. Uma vez domada a sua faceta detergente, reveste subtilmente a frescura das composições hesperidadas.

A lima mexicana, chamada limão verde, lime ou ainda lima key, é o fruto mais cultivado do México. Existem várias espécies de limeira, e os principais países produtores de limas fora deste país são o Brasil, o Peru e o Haiti.

A lima é o único citrino cuja essência é criada por destilação, mas também é possível obtê-la por expressão. Por fim, é um citrino que convém particularmente aos perfumes masculinos. Na fragrância Guerlain Homme com o seu acorde Mojito, a lima harmoniza-se muito bem com o vetiver (cf. A faceta amadeirada).

O limão verde harmoniza-se particularmente bem também com a hortelã, o cassis, uma madeira vibrante como o patchouli, agindo “como um raio de sol” sobre a composição.

O limão

A origem do limão encontra-se algures entre o sul da China e da Índia, tendo sido introduzido na bacia mediterrânica durante as invasões árabes no século X. Este citrino confere uma nota cítrica muito ácida e fulgurante.

A nota do limão é igualmente ascendente, tónica e viva. O limão é celebrado todos os anos durante o Carnaval de Menton em fevereiro. Provém essencialmente da Argentina, mas também de Espanha, EUA e Itália.

A cidra

A cidra provém de uma árvore chamada cidreira. Muito próxima do limão, este citrino tem a casca espessa e possui uma acidez marcada, mas mais fina do que o aroma de um limão. A cidra provém de Marrocos, da Tunísia, de Itália, da Córsega e da China. Aliás, este citrino é mais frequentemente utilizado em cosmética do que em perfumaria.

A verbena

A verbena é uma planta e não um citrino, que confere, no entanto, uma nota encantadora, ao mesmo tempo alimonada e aérea. Uma nota no mesmo registo: o Litsea cubeba.

Nos perfumes, os aromas cítricos podem ser proporcionados por outros ingredientes naturais: é o caso da verbena (ver acima); o gengibre (especiaria fresca) pode reforçar a abertura tónica e fresca de um limão. O lemongrass e a citronela podem reforçar o lado tónico de uma colónia; a lavanda, por sua vez, pode igualmente sustentar a bergamota nas notas de coração.

O pomelo ou toranja

Este citrino resulta de uma hibridação entre o pomelo e a laranja doce. A Florida é o maior produtor de toranja. Pouco utilizado como produto natural, é frequentemente associado ao cassis (existe uma base chamada Citroasis, utilizada em Pamplelune de Guerlain). Os perfumistas gostam também de associar a toranja ao vetiver, cuja “mootkatone” possui uma molécula comum ao aroma da casca de toranja.

A toranja harmoniza-se particularmente bem com a nota de ruibarbo, igualmente com as flores brancas.

As fragrâncias com faceta hesperidada

Existe um grande número de fragrâncias com faceta hesperidada. É nomeadamente o caso de muitas Eaux de Cologne clássicas e modernas, de águas frescas mistas, e de numerosos perfumes femininos.

As Eaux de Cologne clássicas

As notas hesperidadas foram muito frequentemente utilizadas acompanhadas de notas aromáticas (cf. A faceta aromática) e de neroli nas primeiras composições perfumadas, que foram as Eaux de Cologne. Não existe uma versão oficial sobre a origem exata do nome Eau de Cologne; para uns, a primeira Eau de Cologne teria sido comercializada por Paolo Féminis, que a teria trazido de Colónia (receita da Aqua Mirabilis) e legado ao seu sobrinho Johann Anton Farina.

Para outros, a verdadeira Eau de Cologne teria sido criada por Giovanni Maria Farina e Feminis não passaria de um mito. Difícil tirar uma conclusão: as duas teses são plausíveis.

Eis algumas referências de Eaux de Cologne clássicas com faceta hesperidada:

  • Eau Impériale Guerlain
  • Eau du Coq Guerlain
  • Eau de cédrat Guerlain
  • Eau de Cologne Roger Gallet
  • Eau de Cologne 4711
  • Eau de Cologne Chanel
  • Eau de Cologne Dior
  • Blenheim Bouquet Penhaligon’s
  • Colonia Acqua Di Parma
  • Agua Lavenda Puig

Eaux de Cologne modernas

Relativamente às Eaux de Cologne modernas, e mais tenazes, podemos citar as Eaux de Cologne de Mugler: Come Together assim como L’Eau de Cologne du Parfumeur de Guerlain, Cologne Bigarade e Cologne Indélébile de Frédéric Malle.

As Eaux fraîches mistas

As águas frescas são frequentemente, no seu esquema clássico, revestidas em notas de fundo por composições mais quentes, tais como acordes chipres (cf. A faceta chipre), amadeirados ou fougères, ou ainda de patchouli (cf. Madeiras), de musgo de carvalho, ou ainda de fava-tonca (cf. A faceta gourmand).

Eis algumas referências de águas frescas mistas com faceta hesperidada:

  • Eau sauvage Dior
  • Eau pour Homme Armani
  • Eau Guerlain
  • O Lancôme
  • Eau Hermès
  • Eau d’Orange Verte Hermès
  • Eau Cartier
  • Eau Givenchy
  • Les Eaux Fraîches Roger Gallet
  • Les Eaux de Politesse Serge Lutens
  • Ck one Calvin Klein
  • Light Blue Dolce Gabbana
  • Paris Venise Chanel
  • Paris Biarritz Chanel
  • Paris Deauville Chanel
  • Les Aqua Allegoria Guerlain
  • Chance Chanel
  • Eau de Soleil blanc Tom Ford
  • Neroli Portofino Tom Ford
  • Les Escales Dior
  • Les Jardins Hermès
  • Les Eaux de Cologne Atelier Cologne : Orange sanguine
  • Citron Noir Hermès
  • Yuzu man Caron
  • Dimanche à la Campagne Guerlain
  • Bronze Goddess Estée Lauder

Perfumes, eaux de toilette e eaux de parfum clássicos

Eis alguns perfumes, eaux de toilette e eaux de parfum clássicos, que possuem uma faceta hesperidada muito importante:

  • Chance Eau vive Chanel
  • Chance Eau fraîche Chanel
  • Shalimar Souffle de Lumière Guerlain
  • Eau fraîche Addict Dior

Conclusão

A faceta hesperidada pode ser finalmente qualificada pela sua efervescência, o seu sorriso, a sua alegria, a sua vibração, mas também pela energia e o dinamismo que confere às fragrâncias.


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