O Almíscar Tonkin e as Notas Animais na Perfumaria

Bolsa de almíscar antiga e grãos de almíscar Tonkin, ilustrando as notas animais históricas na perfumaria.

Já lhe tinha falado dos almíscares sintéticos num artigo anterior. Conforme prometido, abordo o tema das notas animais que já não se utilizam em perfumaria, com destaque para o almíscar tonkin.

Criei uma Coleção de perfumes em torno dos almíscares brancos, revestidos de diferentes facetas: cítrica, verde, solar, especiada, amadeirada ou ainda empolvada.

O Cervo Almiscareiro

Veloz como um relâmpago, o cervo almiscareiro salta e desaparece por detrás dos bambus. Imagine-o no final das chuvas no norte da Índia, a mais de 2000 metros de altitude, no coração dos Himalaias. É de origem asiática, um animal bastante sedentário que se alimenta de folhas, flores, cogumelos, musgos e líquenes.

Este animal assemelha-se a um corço com cerca de 80 a 100 cm de comprimento, 50 a 70 cm de altura ao garrote e pesa entre 10 e 17 kg; apenas o macho é caçado. O almíscar animal é segregado por um órgão situado entre o umbigo e o pénis. O abdómen contém a famosa bolsa com 25 gramas de grãos de almíscar.

O couro deste cervo almiscareiro era utilizado pelos tibetanos para a confeção de pequenos sacos. O seu pelo era reservado ao enchimento dos melhores colchões e almofadas que serviam os imperadores chineses.

Caça, Caça Furtiva e Proteção (CITES)

A caça ao cervo almiscareiro era praticada de forma intensiva nos anos 1960-1970. Era um desporto muito lucrativo. Na época, tinha em mente o preço de 300 a 400 000 francos por kg (ou seja, 50 000 euros por kg) e podia chegar até 200 000 euros por kg.

Mesmo estando protegido, este cervo almiscareiro é infelizmente ainda caçado furtivamente. Para proteger esta espécie, foram tomadas medidas: o comércio do almíscar é controlado pela convenção sobre o comércio internacional das espécies ameaçadas da flora e fauna selvagens (CITES: Convention on International Trade of Endanged Species), assinada em Washington a 03/03/1973.

O objetivo é estabelecer controlos mundiais sobre o comércio de animais e vegetais selvagens e dos seus produtos. Esta convenção foi aplicada em França em 1978.

Em 1988, foi implementada uma criação em cativeiro na China para obter almíscar sem matar o animal. O animal pode fornecer almíscar 10 a 12 vezes durante a sua vida. A extração do almíscar era aconselhada uma vez por ano nos cervos almiscareiros com idades entre os 2 anos e meio e os 8 anos.

A reputação do almíscar

Na Ásia, existe ainda uma grande procura de almíscar; é um afrodisíaco que se bebe com palhinha em pequenos frascos ao balcão de certos bares. Afirma-se que o almíscar cura a impotência ou melhora os problemas cardíacos. É por isso que permanece ainda nas mentes a associação do almíscar com a noção de sensualidade, tenacidade e rasto.

Mas não confunda o almíscar animal, que cheira a bode e a café negro, com as notas almiscaradas sintéticas de que falei num artigo anterior. É aliás por essa razão que os almíscares sintéticos são chamados almíscares brancos, para que não haja confusão. As notas de almíscar animal e as notas almiscaradas ou almíscares brancos são ambas notas de fundo.

No Médio Oriente, como as leis relativas às matérias-primas são diferentes das da Europa, ainda se pode encontrar almíscar, bem como outras matérias animais naturais, em certas composições. O almíscar natural combina muito bem com as notas de couro ou amadeiradas, nomeadamente o Oud, que é ele próprio uma nota animal muito apreciada.

Extração e Qualidades

Procedia-se a uma lubrificação da bolsa e depois introduzia-se uma espécie de colher de prata com a qual se extraíam suavemente os grãos. Este método não era muito satisfatório e era praticado sem anestesia.

Preparavam-se, a partir do almíscar em grãos, tinturas a frio e, mais raramente, infusões a quente com álcool a 96 graus. Estes produtos eram conservados durante muito tempo, pois o tempo tornava-os melhores. Eram conservados em enormes frascos chamados Dames-Jeannes durante um mínimo de 18 meses.

Apesar de todos estes esforços para preservar a existência do cervo almiscareiro, verificou-se que as criações em cativeiro não eram uma boa solução. O cervo almiscareiro é uma espécie solitária que se reproduz mal em cativeiro. A sobrepopulação dá origem a combates entre machos. Ficou também provado que o cervo almiscareiro criado sozinho produzia um almíscar de melhor qualidade.

As diferentes qualidades de almíscar

  • Musc Tonkin: proveniente da caça na China, Tibete, Mongólia e Caxemira
  • Musc Kabardin: a qualidade inferior, é 4 vezes menos potente que o Musc Tonkin
  • Musc Assam
  • Musc Tawpee
  • Musc Yunnan
  • Musc Bouchara

Falsificação do almíscar

Sendo o almíscar muito interessante do ponto de vista lucrativo, surgiram muitas falsificações. Os agentes de falsificação eram múltiplos: terra, sangue seco, fígado, pelos secos, estrume, pedaços de chumbo, folhas de chá infundidas. Mãos hábeis abriam a bolsa e esvaziavam o precioso produto, enchendo-a com estes agentes de falsificação. No início, o almíscar era comprado em bolsas. Posteriormente, passou a ser comprado em grãos.

O almíscar possui uma consistência melosa, uma cor vermelha acastanhada que endurece rapidamente fora da bolsa, adquirindo então uma cor castanha escura. As boas qualidades são suaves ao toque e de cor castanha escura. As bolsas de boa qualidade produzem 70% de almíscar em grãos, contra 40 a 60% para as de má qualidade.

Neste almíscar animal, foram encontradas numerosas moléculas que permitiram obter diversas notas almiscaradas idênticas às encontradas neste almíscar animal. A muscona é o constituinte característico do almíscar natural animal, presente entre 0,5% e 2%. Os almíscares animais estão atualmente proibidos pela WWF na perfumaria, mas existem outras soluções.

Os substitutos vegetais (Naturais)

A Ambrette (Almíscar Vegetal)

A ambrette, ou almíscar vegetal, cresce na Indonésia, Índia, Seicheles e Antilhas. As suas sementes, encontradas numa variedade de hibisco, produzem, por destilação, um odor almiscarado devido principalmente à ambretólida. Produto muito caro, a ambrette é também cultivada na Holanda, em França, na Hungria e na Alemanha.

É uma fragrância ligeiramente almiscarada, apimentada, verde, bastante irisada, com um aroma de pera nas notas de topo. As raízes e os frutos são utilizados para extrair o óleo essencial, enquanto os caules são usados em confeitaria.

Confere muita elegância à fragrância; utilizei-a em Dovana, um dos perfumes da minha Coleção Almíscares. A ambrette possui uma fragrância que combina com todas as outras matérias-primas: citrinos (limão, bergamota, tangerina), notas amadeiradas (sândalo, vetiver, patchouli, cedro), notas orientais (fava-tonca, incenso) ou notas florais (rosa, jasmim, tuberosa, neroli, flor de laranjeira, peónia).

Outros substitutos naturais

  • A tintura de trufa: As tinturas e os resinóides alcoólicos eram e são ainda utilizados em perfumaria e em licoraria. Esta fragrância aromática tem a vantagem de conferir uma nota animal, sensual e, sobretudo, natural.
  • Essência de costus: É uma planta muito folhosa que pode atingir 2 a 3 metros de altura e que cresce na Caxemira e no norte da Índia. A raiz é seca, fendida, descascada e ligeiramente torrada. Aconselho-o, por exemplo, a cheirar o perfume masculino Kouros de YSL, que integra bem este odor de costus.
  • Goldenstone ou Hyracéum: O animal é o Hírax, que urina nas rochas, e é uma história bastante singular. Recuperam-se as pedras impregnadas deste líquido e destila-se o conjunto para obter uma nota muito interessante na mesma tonalidade que a civeta. Deste modo, obtém-se uma fragrância natural animal autorizada.
  • O cominhos: É uma especiaria quente com notas especiadas, produzida na Índia, em Marrocos e na China. O cominhos possui um odor potente e animal que pode lembrar a transpiração.
  • O rebento de groselha negra: As notas melosas podem ter inflexões animais, como o absoluto de cera de abelha (cf. Notas melosas). Giesta Absoluto Calábria, nota de Cera e de Groselha negra, possui uma nota butírica que cheira a manteiga rançosa.
  • O esteva labdanum: Provém de um arbusto mediterrânico. Esta planta segrega uma espécie de goma viscosa, de que as ovelhas são muito apreciadoras. Existe sob forma de concreto; a partir deste concreto, obtém-se o absoluto de esteva (cf. A extração por solventes voláteis). Existe também em essência (cf. Destilação); a sua fragrância é acouroada, balsâmica, animal, quente e intensa.

Os substitutos sintéticos (Moléculas)

  • Costus Oliffac: reconstituição olfativa do costus pela IFF, mas mais animal do que o natural.
  • Base Animalis de Synarôme: o seu constituinte principal é o fenil acetato de paracresilo. É a base do perfume Kouros de YSL com adição de costus.
  • Chevral: é do mesmo género que a base Animalis, mas provém da IFF. O Chevral é mais potente do que a base Animalis.
  • Castoréum sintético: como o castoréum Artéssence da Biolandes. O verdadeiro castoréum conferia uma nota de couro muito interessante, utilizada em muitos perfumes femininos ou masculinos.
  • Escatol: como o nome indica, é uma nota muito escatológica.
  • Indol: odor muito potente e nota sintética, mas presente no estado natural na flor de jasmim, conferindo uma nota animal muito útil para intensificar os florais. O indol pode igualmente ser soberbo num perfume oriental, num perfume chipre ou amadeirado.
  • A família dos Paracresóis: Paracresol (odor de estábulo), Metil Paracresol, Acetato de Paracresilo, Fenil acetato de Paracresilo, Metil Paracresil Éter.

O caso do Âmbar Cinzento e da Civeta

Recorde-se que o âmbar cinzento é uma concreção patológica do cachalote, ainda utilizada em certos perfumes de gama muito alta. É uma das matérias-primas mais caras da perfumaria, cuja fragrância, ligeiramente iodada (faceta marinha), empolvada, tabaqueira, acouroada, é refinada. É a única nota animal natural autorizada, pois não se mata o animal.

Contudo, devido ao seu custo exorbitante, o âmbar cinzento pode ser substituído por: Grisalva, Grisambrol, Cétalox (muito chique), Ambrofix, Paracresil Isobutirato, Ambrinol, Ambrarome.

A Civeta (Proibida)

Recorde-se que a civeta tem uma fragrância muito potente e selvagem, estando atualmente proibida. Era utilizada pura pelos etíopes na noite das suas núpcias. A fragrância de civeta encontrava-se nos extratos de perfume ou águas de perfume das fragrâncias Jicky de Guerlain ou Mouchoir de Monsieur (cf. Perfume masculino). É uma fragrância bastante violenta, como se se sentisse a pele do animal.

Substitutos sintéticos: Civettone, Tonkitone, Muscarome.


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