As Palavras do Perfume: Decifrar a linguagem das emoções

Se somos frequentemente capazes de descrever um quadro ou uma escultura, de comentar um livro, uma ária de ópera, muitas vezes temos dificuldade, por falta de um vocabulário que lhe seja próprio, em transmitir a emoção que um perfume pode inspirar.
Na Guerlain, desempenhei o papel de tradutora de emoções entre o marketing e o perfumista criador, de transcrição dos desejos do marketing na linguagem técnica do perfumista. Eis o que ouço frequentemente e o que isso significa tecnicamente:
O dicionário de tradução: Cliente / Perfumista
- «É fresco»: Ouve-se com muita frequência. Não procure frescura técnica, mas simplesmente cheira bem, é agradável.
- «Acho-o demasiado ácido, amargo, arranha-me a garganta, pica»: Quando um ensaio é um pouco demasiado hesperidado e ascendente.
- «É forte. É pesado»: Aparentemente o perfume não agrada. Isto requer uma aptidão particular para desenvolver fragrâncias que não são próximas do seu próprio gosto e universo.
- «É especiado»: Mesmo que não haja tecnicamente especiarias, para significar que este perfume tem carácter.
- «O cheiro a verniz de unhas, banana ou laca»: Surge frequentemente na boca das mulheres: o perfumista vai compreender imediatamente que há nomeadamente demasiadas notas de acetato de benzilo.
- «Lembra-me terra molhada»: Pode dever-se a uma dosagem excessiva de patchouli ou quando este não está suficientemente revestido.
- «Cheira a bebé»: Indica uma forte presença de almíscares brancos ou de flor de laranjeira. É um cheiro bastante positivo e apreciado.
- «Cheira a legumes, a tomate»: Notei-o num desenvolvimento recente: quando as notas verdes (cis 3 hexenol, triplal) estavam um pouco isoladas e um pouco brutas.
- «É sujo» (Vaca, estábulo, cavalo): Atenção, isto significa que as notas animais, indol ou acoiradas (ou paracresol para as notas «cavalo») estão em excesso. O costus é frequentemente vítima de comentários pouco elogiosos, comparando-o a pés sujos ou cabelos oleosos.
- «Cheira a queijo»: Pode significar uma nota animal associada a uma nota butírica.
- «Cheiro a detergente ou a sabonete»: Que pode ser uma overdose de dihidromirecenol ou simplesmente o perfume é demasiado almiscarado.
- «O rebuçado, o caramelo, o leite quente, o bolo»: Fácil de corrigir: vanilina, baunilha ou o veltol (que confere esse lado framboesa e acaramelado).
- «O pó de arroz, o livro velho, cheira a velho»: Impressão dada por notas demasiado irisadas e amadeiradas, ou demasiada violeta clássica. A mimosa pode igualmente evocar este aspecto áspero e antiquado.
- «Cheira a cartão»: Isto pode ser causado por um excesso de notas solares ou saliciladas.
- «A cola branca»: Fácil! É dado pelo aldeído anísico, a heliotropina ou a cumarina.
- «A cabeça de boneca, o celuloide»: Referência às bonecas perfumadas com baunilha (nomeadamente a boneca «Corole»), que marcaram as meninas.
- «O marcador»: Para o paracresol. A minha colaboradora identifica o paracresol quando me diz que cheira a «marcador».
- «O feno, a erva cortada»: Referência bastante positiva que exprime as notas verdes, do tipo triplal.
- «O champô de maçã verde»: A corrigir! Não é um comentário positivo, soa um pouco «cheap».
- «Cheira a alho-porro»: Atenção à qualidade do vertofix. Pode ser incómodo.
- «O creme solar, a praia»: Se estas referências são voluntárias, são bastante positivas. Estas notas são muito apreciadas e muito «europeias» (menos pelas asiáticas e americanas).
- «O mar, a ostra, o iodo»: Não o ouvi muito na Guerlain. Estes produtos são utilizados em dose homeopática.
- «Cheira a gasóleo, a gasolina»: Frequentemente causado por um excesso de notas verdes do tipo cis 3 hexenol.
- «A torrada, o queimado»: Provavelmente demasiadas pirazinas.
- «Trespassa-me o nariz»: São madeiras ambaradas (do tipo karanal) que podem causar esse efeito. Pessoalmente, sou muito sensível a isso.
- «Já não sinto nada, o meu nariz está anestesiado»: Talvez se deva à presença de notas de violeta, com as iononas.
Durante a minha última viagem ao Canadá, jornalistas disseram-me sobre um perfume Guerlain que eu apresentava: «C’té écœurant ce parfum là» e aí a surpresa! Achavam-no simplesmente: «Sublime!». Daí a importância da descodificação! É indispensável compreender o que se esconde por detrás das palavras, por vezes cruas, e colocar as perguntas certas para aprofundar o sentido das observações.
Referências bibliográficas
Excerto do livro de Freddy Ghozland L’Herbier Parfumé : histoires humaines des plantes à parfum. Este livro é muito interessante, onde encontrará a história da perfumaria e o testemunho dos perfumistas.
- L’herbier Parfumé (Preço público: 35€)
- Guerlain : Les flacons à parfum depuis 1828 (Preço público: 59€ – esgotado)