O Herbário do Perfumista: Guia das matérias vegetais raras (Oud, Ambrette, Tabaco…)

Fotografia de natureza-morta em estilo herbário mostrando aparas de madeira de oud, folhas de tabaco secas e sementes de ambrette sobre uma mesa de perfumista, ilustrando a diversidade das matérias vegetais.

Em perfumaria, existem, entre as matérias-primas utilizadas para compor um perfume, matérias-primas animais, sintéticas ou vegetais.

Estas últimas compõem-se de flores, frutos, especiarias, madeiras, bálsamos e resinas. Existem igualmente numerosas outras matérias vegetais que podem ser utilizadas numa fragrância. Propomos-lhe uma lista abaixo, por ordem alfabética.

Amêndoa natural

Existe uma nota de síntese chamada aldeído benzoico que se obtém, desde há pouco tempo, de forma natural. É fabricada a partir do interior dos caroços de alperce por um processo de hidrodestilação, que permite extrair o benzaldeído (o produto obtido é chamado benzaldeído natural).

Obtenção e características

A matéria-prima utilizada é o fruto, que é triturado e depois macerado em água tépida durante 12 a 24 horas, o que permite a formação do óleo essencial. Uma destilação particular permite obter um produto purificado. Trata-se de um líquido incolor, ou amarelo muito pálido, cujo odor agradável e penetrante recorda o das amêndoas frescas trituradas.

As outras notas amendoadas em perfumaria:

  • A fava-tonca e o seu constituinte, a cumarina.
  • O heliotrópio ou heliotropina.
  • O aldeído anísico.

Os benefícios da amêndoa para a saúde

A amêndoa é muito rica em vitamina E, minerais e oligoelementos. Trata-se de um fruto alcalinizante, muito nutritivo, energético e remineralizante. Desprovido de colesterol, rico em fitoesteróis e em proteínas vegetais, é benéfico para o peito, os pulmões, o estômago e os intestinos.

A amêndoa possui, com efeito, propriedades antissépticas que preservam o bom equilíbrio da flora intestinal. A sua riqueza em magnésio e em fósforo assimiláveis pelo organismo torna-a num excelente tónico para o sistema nervoso, e o seu elevado teor de cálcio é excelente para a saúde dos ossos.

Perfumes: A amêndoa natural está presente em nota de topo, em Florentina de Delacourte Paris. Esta fragrância encontra-se igualmente em L’Instant Magic, desenvolvido por Randa Hammami e Sylvaine Delacourte.

Ambrette (Almíscar vegetal)

Nome botânico: Abelmoschus moschatus

Com um tamanho que pode atingir os 3,50 m, a ambrette é a prima do hibisco. Possui uma grande flor amarelo-enxofre de garganta castanha, e é utilizada pelas suas sementes que se encontram no interior de frutos com grandes cápsulas castanhas.

A ambrette é assim chamada porque as suas sementes exalam um odor muito agradável, entre o âmbar e o almíscar. Estas têm uma forma de feijão e são envolvidas por um tegumento (um tecido vivo) contendo um óleo. Uma substância resinosa amarela confere à semente o seu odor tão particular, que é ainda mais percetível quando se esmaga.

O verdadeiro Almíscar Vegetal

Trata-se, na realidade, de um almíscar vegetal com presença natural de ambrettolide, a não confundir com o almíscar Ambrette (um almíscar nitrado tóxico de notas almiscaradas), que está hoje proibido em perfumaria.

Todos os anos, são produzidas aproximadamente sessenta toneladas de sementes. O período de colheita decorre de junho a julho e tudo é colhido à mão. Este produto é excessivamente caro e luxuoso, e poucos perfumistas o utilizam.

Tratamento e Fragrância

O tratamento da ambrette faz-se por destilação, dando origem a um óleo essencial chamado, erroneamente, “manteiga de ambrette”, devido à sua consistência pastosa. Este óleo é depois fracionado para eliminar os ácidos orgânicos sólidos restantes, e dá um produto final chamado “o absoluto”.

A extração por CO2 supercrítico é um método interessante, pois é mais adaptado ao arrastamento de moléculas pesadas, com um rendimento consideravelmente melhor.

Fragrância: O odor da ambrette é suave, almiscarado, ambarado e ligeiramente animal. É também frutado, com uma nota situada entre a pera e a aguardente de ameixa, e ligeiramente floral. A sua forte concentração em farnesol confere uma nota que se aproxima do lírio-do-vale. Trata-se de um produto de uma potência e de uma tenacidade excecionais.

História e Perfumes

As sementes de ambrette eram utilizadas pelas suas virtudes relaxantes e estimulantes, mas também pelo seu poder antisséptico e afrodisíaco. Antigamente, permitiam oferecer uma boa higiene oral e aliviavam, sob forma de emulsão, as comichões.

Atualmente, as sementes de ambrette são por vezes adicionadas ao café, mas também a certos licores tradicionais de ervas, como a Bénédictine.

Perfumes com ambrette:

  • Champs Elysées Guerlain
  • Muscs Koublaï Khän Serge Lutens
  • Clair de Musc Serge Lutens
  • Bois farine L’Artisan Parfumeur
  • N°19 Chanel
  • Dovana Delacourte Paris

Madeira de Bétula

A essência de alcatrão de bétula é obtida por destilação lenta da madeira. A bétula é uma árvore originária da Rússia e do Norte da Europa. Também chamada “bétula branca”, cresce em estado selvagem. O óleo obtido após destilação é desfenolizado e lavado em meio alcalino para poder ser utilizado em perfumaria.

Hoje em dia, uma reprodução realizada com cinco a dez matérias-primas é utilizada para substituir a madeira de bétula, que, considerada tóxica, está portanto proibida.

Utilização e notas de couro

O alcatrão de bétula é utilizado na Rússia para curtir peles, e integrado em certas preparações farmacêuticas (pastilhas elásticas, dentífricos). Em perfumaria, a fragrância da madeira de bétula conferia uma nota de couro a estes perfumes emblemáticos: Cuir de Russie de Chanel ou Cuir de Russie de Guerlain.

Está também presente em Shalimar e Habit Rouge. Estas fragrâncias tiveram de ser reformuladas, e a madeira de bétula foi substituída por reproduções à base de produtos naturais como o óleo de Cade e o esteva-labdanum, frequentemente misturados com notas de síntese do tipo IBQ (nota verde e de couro próxima da borracha) ou suderal (cf. Faceta couro).

A essência de Cade: Trata-se de outra matéria-prima de couro (propriedades anticaspa) obtida por destilação do zimbro (oxicedro). Participa no acorde “madeira de bétula”.

Camomila

Flor sagrada no Egito antigo, dedicada ao deus Rá (o deus do Sol), a camomila romana possui uma fragrância muito aromática, ligeiramente amarga, e facetas frutadas de maçã. Esta flor cultivada na Europa assemelha-se a uma margarida e possui virtudes medicinais. Em perfumaria, atua sobretudo em notas de topo e combina muito bem com notas florais ligeiras.

A camomila está presente em Jubilee Bouquet de Penhaligon’s, e foi recentemente destacada em Mémoire D’une odeur de Gucci. Todavia, esta flor permanece muito pouco utilizada em perfumes.

Citronela

Contrariamente ao que se possa pensar, a citronela nada tem a ver com o limão. Trata-se de uma gramínea (planta de flores minúsculas agrupadas em espigas), que é muito utilizada na cozinha e reputada pelas suas numerosas virtudes medicinais.

As diferentes variedades

  • Qualidade Cymbopogon nardus (Sri Lanka, Malásia): As folhas são secas ao sol e depois destiladas. A essência contém geraniol e citronelal. O seu nome inglês é ginger grass.
  • Qualidade Cymbopogon winterianus (Java): Muito mais fresca e apreciada. Frequentemente integrada em perfumes masculinos, a sua fragrância é muito viva e fresca, o que sublima as notas cítricas (cf. Faceta hesperidada). Foi muito utilizada como repelente contra mosquitos, o que talvez explique a sua utilização limitada em perfumaria.

Esteva-Labdanum e os seus derivados

O esteva-labdanum é uma resina, reputada desde a Antiguidade pela sua fragrância mas também pelas suas propriedades medicinais (cicatrizante). Este arbusto encontra-se nos países que bordejam o Mediterrâneo (Espanha, Marrocos). Os rebentos jovens segregam uma resina odorante e viscosa, o labdanum, uma goma também chamada “lágrimas de Cristo”.

A sua fragrância possui algumas notas comuns com o âmbar-cinzento: tem acentos de couro, animais e herbáceos. Tradicionalmente, o labdanum era recolhido pelos pastores com a ajuda de tiras de couro, raspando os ramos da esteva, ou então penteando as barbichas das cabras que se esfregavam contra a planta.

Diferença entre Esteva e Labdanum

Existe um absoluto esteva-labdanum e uma essência de esteva. Hoje, a goma obtém-se fervendo os ramos em água quente e soda.

  • Produtos provenientes da goma (“Labdanum”): O resinoide labdanum tem uma espessura olfativa notável, sombria, profunda e quente. É uma nota potente próxima do incenso (queimado), com facetas de couro, ambaradas, baunilhadas e salgadas.
  • Produtos provenientes das folhas/ramos (“Esteva”): A essência de esteva possui uma faceta muito aromática, canforada, nervosa em topo. A sua evolução torna-se depois resinada, amadeirada, quase caramelizada.

Esta nota é muito utilizada em perfumes orientais, ambarados e chipres.

Nigela

Nome botânico: Nigella Damascena

Vizinha botânica dos acónitos e das esporas-bravas, as nigelas são elegantes ranunculáceas de flores em estrela de um azul pálido. A nigela é uma planta surpreendente, e as suas sementes possuem uma fragrância frutada e melosa, que recorda estranhamente o morango silvestre.

É muito apreciada pelos perfumistas que dispõem de poucas notas frutadas naturais (cf. Faceta frutada).

O seu nome provém do latim niger que significa “negro”. Além disso, esta planta é muito presente nos terrenos rochosos do sul, do oeste e do sudoeste de França.

Opopanax

Do grego opos que significa “suco”, e panax que significa “planta medicinal”, trata-se de uma planta vivaz da família das umbelíferas (variedade Commiphora erythraea). O opoponax encontra-se principalmente em África (Etiópia, Eritreia, Somália).

Como a mirra, a sua essência é obtida por exsudação da casca, depois tratada por destilação. É utilizado em notas de fundo dos perfumes orientais. A sua fragrância é suave, quente, frutada, terrosa e balsâmica, mas também de couro em notas de fundo. O opoponax está presente em Shalimar de Guerlain e Coco de Chanel.

O Oud

O oud é utilizado há séculos para fins medicinais e espirituais. Na cultura muçulmana, é considerado um dos ingredientes fundamentais. Trata-se de uma nova nota amadeirada no órgão do perfumista, muito diferente das outras.

A Madeira de Oud (Agar)

O oud é produzido por uma árvore tropical do género Aquilaria quando esta é infetada por um fungo de nome Phialophora parasitica. A árvore infetada reage produzindo uma resina rara e preciosa: a madeira de oud (ou madeira de agar, aloés). Provém do Sudeste Asiático e confere uma nota amadeirada, sombria e intensa.

Apenas um espécime em cem contém a preciosa resina. Hoje, estas árvores estão protegidas. Na maioria dos perfumes de nicho, não existe uma gota de oud verdadeiro, devido ao seu preço que ultrapassa o do ouro.

Trata-se, na maioria das vezes, de reconstituições compostas com outras notas amadeiradas (cedro, sândalo, vetiver, patchouli, incenso), frequentemente associadas ao Cypriol, e adicionadas de notas de couro e animais. Estes “falsos ouds” possuem uma potência inaudita.

Sésamo

Nome botânico: Sesamum indicum

Imortalizadas pelos contos das Mil e Uma Noites, as sementes de sésamo (originárias de África central) desempenharam um papel no quotidiano desde tempos remotos. A fragrância do sésamo é muito conhecida e combina perfeitamente com madeiras ou notas orientais. Possui efeitos de pão quente, xarope de ácer, café, amendoim e avelã.

Para ser utilizado em perfumaria, o sésamo é geralmente tratado por extração com CO2, um processo que lhe permite preservar a sua fragrância original. Em Osiris de Delacourte Paris, o sésamo é combinado com mel, cedro e flor de laranjeira.

Tabaco Louro

Trata-se de uma planta anual originária da América tropical. Após terem sido colhidas e secas, as folhas são submetidas a uma fermentação não alcoólica. O absoluto é obtido por solventes voláteis (frequentemente descolorado em seguida). 200 kg de folhas secas permitem obter 850 g de essência.

O odor do tabaco é terroso, animalizado, com notas de fava-tonca e feno seco. A sua fragrância é também quente, melosa e suave, combinando particularmente bem com notas de couro, amadeiradas e chipres.

Tília

Esta árvore, que pode atingir até 30 metros de altura e viver até mil anos, encontra-se principalmente na Europa. As suas flores possuem cinco pétalas de cor branco-amarelada e são muito odorantes. Em perfumaria, o hidrolato por destilação é utilizado para extrair a essência das flores.

Todavia, a tília é mais frequentemente reproduzida sob forma de “reconstituição” nos perfumes. Com efeito, não é fácil de utilizar, pois a fragrância possui conotações de “tisana”. A sua fragrância suave e delicada é muito utilizada nas águas de Colónia, e possui uma nota ligeiramente melosa.

Perfumes que contêm tília:

  • Eau du Ciel Annick Goutal
  • Extrait de Songe L’Artisan Parfumeur

A Material. An Emotion. A Fragrance.

Delacourte Paris reinvents perfumery's iconic raw materials to give them a new, unique, and unexpected personality.
Discover the fragrances with our
Discovery Set.

Join our Instagram community

Delacourte Paris Fragrances
Scroll to Top