A Alfazema na Perfumaria: O ouro azul da Provença e as notas aromáticas

Campos de alfazema em flor na Provença com frasco de óleo essencial e alambique, ilustrando a colheita do ouro azul.

A alfazema é tão conhecida e familiar que, muitas vezes, já nem pensamos nela. Como se fosse invisível, está presente nas nossas memórias de férias e de infância, frequentemente ligada às recordações do sul de França, por vezes associada a momentos positivos quase clichés, como o cheiro dos lençóis lavados no armário da avó ou ainda a evocação do sabão de Marselha e o seu aroma limpo.

Virtudes e História da alfazema

As suas virtudes medicinais são conhecidas desde a Antiguidade. A alfazema era um ingrediente fundamental utilizado no embalsamamento e foi usada desde tempos remotos para perfumar a roupa. O seu nome vem do latim lavare (lavar). As lavadeiras utilizavam-na abundantemente. Tinha a virtude de erradicar as doenças ao perfumá-las e foi utilizada durante a peste.

A lenda do vinagre dos 4 ladrões

Esta história remonta ao século XVII, em Toulouse, devastada pela peste, onde 4 ladrões assaltavam impunemente as casas contaminadas, sem recuar perante moribundos e cadáveres, saindo sempre ilesos das suas macabras incursões. Depois de serem presos e condenados à pena capital, foi-lhes proposto um acordo: a vida em troca do segredo do misterioso líquido imunizante com o qual untavam o corpo.

Os 4 bandidos confessaram-se então e revelaram a receita mágica: tomilho, alfazema, alecrim, salva, macerados em vinagre, com a indicação de esfregar todo o corpo para atravessar incólumes todas as epidemias que o diabo enviasse.

Foi no século XIX que um certo Maille, destilador de vinagre, patenteou esta fórmula para a lançar no comércio de medicamentos, com uma abordagem particularmente direcionada — um produto recomendado a freiras, padres e médicos. Beba-se em jejum, uma colher num copo de água, esfregue-se bem as têmporas e depois poder-se-á tranquilamente visitar os doentes.

Usos tradicionais e medicinais

Ainda utilizada pela sua ação sobre as enxaquecas, contra as constipações, pois contém naturalmente cânfora, as picadas de insetos e as mordeduras de serpentes. Nos Alpes, quando os seus cães são mordidos por víboras, os caçadores colhem alfazema, amassam-na e esfregam os animais mordidos; o veneno é imediatamente neutralizado.

Em utilização interna: antissético, cicatrizante, antirreumatismal, antienxaqueca, vermífugo bactericida, antibronquítico, diurético, tónico cardíaco, insónias, eficaz contra os piolhos. Em infusão, favorece a digestão e o sono. O seu perfume seduz as abelhas, que se carregam deste néctar para nos dar o mel de alfazema.

Botânica: Alfazema ou Lavandin?

Existe uma diferença fundamental entre a alfazema fina e o lavandin, o seu híbrido.

A Alfazema Fina

Originalmente, a alfazema implantava-se em terras selvagens, onde nenhuma cultura era possível. Já conhecida dos egípcios pelas suas virtudes terapêuticas, cresce espontaneamente nas terras secas da Alta Provença.

Em meados do século XVIII, graças ao desenvolvimento das perfumarias de Grasse, a procura de aromas tornou-se cada vez mais importante. A colheita, que era então um trabalho complementar para os agricultores (250 kg a 300 kg de alfazema colhida por dia por trabalhador), intensificou-se a tal ponto que se decidiu cultivá-la.

Encontra-se nos planaltos de Valensole, nos Alpes da Alta Provença, a sudoeste de Digne, na Drôme, e também no coração do vale de Roanne, a partir dos 600 m de altitude. A colheita faz-se a partir de meados de julho e pode prolongar-se até meados de agosto.

Principais constituintes: Éteres de linalilo e de geranilo, geraniol, linalol, limoneno, cânfora, cumarina, alfa-pineno, éteres butíricos e valeriânico. Note-se que é a percentagem de linalilo que lhe confere a sua qualidade olfativa.

O Lavandin (Híbrido)

O lavandin é uma espécie muito diferente da alfazema, pois resulta de um cruzamento entre a alfazema e o aspic, sendo portanto um híbrido (cruzamento entre a Lavandula Vera e a Lavandula Spica).

A criação desta planta híbrida, o lavandin, foi realizada por volta do século XX. É uma variedade que se adapta a uma baixa altitude de 200 metros. O caule é mais alto, cerca de 50 a 80 cm, e caracteriza-se por duas ramificações laterais, situadas na parte inferior. As flores são geralmente maiores do que as da alfazema.

Existem várias variedades: lavandin super, grosso, abrialis e sumian. O método de colheita é o verde triturado — os caules são recolhidos com grandes tratores e os caules e folhas são tratados por destilação no próprio dia.

Olfação: É mais canforada do que a alfazema, ligeiramente amadeirada, menos elegante, fina e refinada do que a alfazema; é por isso que o lavandin é utilizado em sabões e amaciadores. Existem também, nas mesmas tonalidades de notas aromáticas mas menos nobres, o aspic, o hissopo e o alecrim.

Produção e Desafios atuais

Pode encontrar-se alfazema na Rússia, na Bulgária, na Austrália, mas em maior quantidade em Itália, Espanha e, naturalmente, em França. A França é um dos principais fornecedores de alfazema.

Ameaças: A alfazema é ameaçada e por vezes destruída pelo fitoplasma, uma doença muito contagiosa — no sul de França chamam-lhe o definhamento. Em três anos, a alfazema enfraquece e transforma-se em feno. Alguns produtores são afetados e podem perder até metade da sua colheita. Anteriormente era tratada com pesticidas muito eficazes, mas desde então tal foi proibido para não prejudicar as abelhas.

Existem agora novos métodos. Com a ajuda da Grieppam e da Sociedade Givaudan, empenharam-se na criação, em estufas, de variedades específicas, anti-insetos, mais resistentes. Os primeiros ensaios foram muito conclusivos, pelo que há razões para manter a confiança.

A essência ou óleo essencial obtém-se por destilação. Pode obter-se também o absoluto de alfazema por extração com solventes voláteis. A alfazema é colhida e depois seca durante dois a três dias antes de ser destilada. Isto tem a vantagem de acentuar o lado cumarínico (contido na sua composição) e o caráter ambrado suave da alfazema.

A alfazema no mundo

É apreciada em todo o mundo, naturalmente em Inglaterra, mas é totalmente desconhecida no Japão. Para as japonesas, este aroma é algo muito exótico, mas apreciam utilizá-lo em brumizadores ou nebulizadores de ambiente.

Soube que é muito apreciada no Brasil. Importada pelos portugueses, em 40% dos produtos brasileiros encontra-se alfazema — tal como na Europa, está presente nos detergentes para roupa, nos sabões e produtos de limpeza, etc.

Existe uma festa religiosa muito importante chamada Lavagem do Bonfim, na Bahia, onde o seu aroma invade toda a cidade. A festa tem lugar em janeiro; as baianas vestem-se de branco e perfumam-se com alfazema para ir à igreja.

A Alfazema na Perfumaria: Fougère e Modernidade

Até agora, foi abundantemente utilizada nas águas de colónia clássicas, bem como nos acordes fougère, chipre ou orientais. A alfazema poderia ser novamente fonte de inspiração se se ousassem outras combinações, como a ideia de reunir todas as flores violetas — a íris, a violeta, o heliotrópio e a alfazema — e porquê não associá-las à nota de chocolate, alcaçuz, ou amêndoa, ou combiná-la com notas solares.

Poderia também ser explorada numa versão verdadeiramente feminina, quando até agora tem sido sobretudo utilizada em composições masculinas ou unissexo.

Os perfumes que contêm alfazema

  • Jicky de Guerlain
  • Mouchoir de Monsieur de Guerlain
  • English Lavender de Yardley
  • English Fern de Penhaligon’s
  • Sagua Lavenda Puigseiva de Alfazema
  • Pour un Homme de Caron
  • Azzaro pour Homme
  • Heritage de Guerlain
  • Lavender Palm de Tom Ford
  • Encens de Serge Lutens
  • Lavande de Serge Lutens
  • Le Mâle de Gaultier
  • Luna Rossa de Prada
  • Jersey de Chanel
  • Florentina de Delacourte Paris

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