As Especiarias em Perfumaria: Notas frescas e notas quentes

As especiarias fazem parte das matérias-primas naturais utilizadas em perfumaria. Existem duas categorias: as especiarias frescas e as especiarias quentes.
As especiarias frescas atuam sobretudo nas notas de topo de um perfume, enquanto as especiarias quentes se desenvolvem principalmente nas notas de coração e nas notas de fundo.
As Especiarias Frescas
Entre as especiarias frescas, encontramos, entre outras:
- O cardamomo
- O coentro
- A pimenta-rosa
- A pimenta timut
- O gengibre
- As bagas de zimbro
O Cardamomo
Planta herbácea originária do sul da Índia, o cardamomo pertence à mesma família botânica do gengibre e do açafrão-da-terra. Cresce em estado selvagem em bosques húmidos e montanhas. Encontra-se igualmente no Sri Lanka, na Tailândia, na Tanzânia e na América Central. Existem variedades de cardamomo verde e preto.
Esta «grande dama» pode medir até 5 metros de altura e exibe belas folhas verdes. As pequenas cápsulas que encerram as célebres sementes perfumadas encontram-se no interior das suas pequenas flores brancas.
É destilando estas cápsulas que se obtém o óleo essencial de cardamomo utilizado em perfumaria. Trata-se de uma especiaria muito cara, pois a sua produção exige uma quantidade de mão de obra muito considerável.
Os benefícios do cardamomo para a saúde
As sementes de cardamomo comprovaram a sua eficácia na medicina ayurvédica (medicina tradicional indiana) e servem como um poderoso tónico que pode melhorar a digestão e aliviar as náuseas e as dores renais.
As sementes e a essência de cardamomo servem também para aromatizar o café (principalmente nos países árabes): presume-se que neutralize os efeitos da cafeína. Permitem aromatizar o chá (como o delicioso Chai Massala), o vinho quente, e são utilizadas na pastelaria escandinava. Os Romanos já utilizavam o cardamomo na cozinha.
Os perfumes à base de cardamomo:
- Voyage Hermès
- Déclaration Cartier
O Coentro
Planta umbelífera herbácea com 20 a 80 cm de altura e originária do Médio Oriente, o coentro (Coriandrum Sativum, o seu nome científico) é hoje cultivado na Europa e na Rússia. Esta erva de folhagem fina, com pequenas flores e frutos redondos volumosos, encontra-se principalmente nas pradarias e nos campos.
Pertencendo à família das cenouras, é também chamado «salsa chinesa» ou «salsa árabe». Todas as partes desta planta são comestíveis, tanto as folhas como as sementes e as raízes, embora o seu sabor difira. As folhas têm um aroma ligeiramente anisado; e as sementes e raízes possuem um sabor de casca de laranja.
A história do coentro
Foram encontrados vestígios de coentro nos túmulos dos faraós. Na Idade Média, era igualmente utilizado para afastar os demónios, lançando um punhado da especiaria ao fogo. Carlos Magno apreciava-o pelas suas funções bactericidas, e virtudes afrodisíacas foram-lhe posteriormente atribuídas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, estando os produtos brutos racionados, inventaram-se então os “sugar drops”, sementes de coentro revestidas de açúcar branco ou rosa, que se lançavam à multidão como confettis durante os poucos momentos de festividade, como nos carnavais.
O coentro é um dos componentes principais do caril, e aromatiza o gin, a chartreuse e o chili. O aroma do coentro é próximo do dos citrinos: é muito ascendente, fresco, alimonado e ligeiramente canforado. Existem variações olfativas conforme a parte tratada (as folhas ou as sementes). O seu constituinte principal é o linalol, comum à fragrância do pau-rosa.
Os perfumes compostos por aromas de coentro são, por exemplo:
- Héritage Guerlain
- Gentleman Only Jean Couturier
- Intense Jean Couturier
- Coriandre Jean Couturier
A Pimenta-rosa ou Bagas-rosa
A pimenta-rosa (de nome botânico Schimus Molle) provém da América do Sul e foi introduzida na Ilha Maurícia no século XIX. Trata-se de uma falsa pimenta, sendo muito utilizada em perfumaria nas notas de topo.
Confere, de facto, elevação e frescura, ao mesmo tempo que proporciona uma tonalidade apimentada. É obtida por destilação ou extração com CO2 supercrítico. Em perfumaria, esta especiaria é utilizada em numerosos perfumes, e o seu aroma acompanha maravilhosamente as notas cítricas.
A Pimenta Timut
Uma nova pimenta originária do Nepal veio recentemente enriquecer o órgão do perfumista: a pimenta de Timur ou pimenta Timut. Com os seus acentos muito interessantes de toranja, trata-se de uma «falsa pimenta», prima da pimenta de Sichuan.
O Gengibre
Esta especiaria é muito apreciada há centenas de anos. Foi descoberta por Marco Polo na China. O gengibre constitui o rizoma de uma grande planta tropical. É por vezes considerado um poderoso afrodisíaco.
Trata-se de uma nota ascendente, fresca, hesperidada, rosada e especiada. Pode por vezes conferir uma nota saponácea ao perfume. Existem qualidades diferentes em função dos processos de extração: seja por destilação clássica, seja por destilação molecular ou CO2.
O gengibre é muito apreciado pelos perfumistas e utiliza-se nomeadamente nestes perfumes:
- Déclaration Cartier
- Five O’clock Serge Lutens
- Allure Homme sport Edition Blanche Chanel
- Eau de Gingembre Roger Gallet
- L’Eau Diptyque
- Fou d’Absinthe L’Artisan Parfumeur
- Safran Troublant L’Artisan Parfumeur
- Dzing L’Artisan Parfumeur
- Ginger Picante Guerlain
- Baptême du Feu Serge Lutens
Bagas de Zimbro
De nome botânico Juniperus communis e da família botânica das Cupressáceas, as bagas de zimbro são os frutos do zimbro, um arbusto originário da Europa mediterrânica, embora seja muito difundido na Europa de Leste. Cresce espontaneamente em solos pobres e secos, formando arbustos de agulhas espinhosas, cujos frutos são utilizados em perfumaria, uma vez destilados.
Servem igualmente na cozinha para aromatizar o chucrute ou ainda no processo de fabrico do Gin (ao qual se juntam, aliás, outras especiarias, como a pimenta, a canela, o coentro, mas também a raiz de angélica, o pó de íris, a casca de citrinos ou ainda o alcaçuz…).
A história do zimbro: Em certas regiões da Europa, era frequente plantar um zimbro junto das habitações, pois atribuía-se-lhe um papel protetor (teria o poder de afastar as doenças, os maus espíritos, as serpentes e as feiticeiras).
Descrição Olfativa: Pertencendo à família olfativa do conífero terpénico, o zimbro possui pequenas bagas escurecidas que encerram eflúvios de pinheiro com sabor especiado e apimentado. Estes eflúvios recordam também o aroma do Gin, sendo simultaneamente amadeirados, aromáticos e ligeiramente resinosos. As bagas de zimbro conferem aos perfumes um sabor especiado, fino e distinto.
Esta especiaria inspirou numerosos perfumes, como Gin Lord Of Barbès.
As Especiarias Quentes
Eis as principais especiarias quentes utilizadas em perfumaria:
- A noz-moscada e o macis (o seu invólucro)
- O pau de canela
- As pimentas
- O açafrão
- As bagas de pimenta-da-jamaica
A Noz-moscada
O fruto da moscadeira é redondo, amarelo-pálido, marcado por estrias vermelhas ou verdes. Quando este fruto atinge a maturidade, implode, dando lugar a uma noz ovoide e castanha, densa e oleosa.
Esta noz é protegida por uma membrana chamada Macis. Na medicina, na cosmética, na perfumaria ou ainda na cozinha, é possível utilizar tanto a noz-moscada como o seu macis, pois é nesta membrana que se encontra a maior quantidade de aroma (libertado pelo Eugenol através do seu óleo essencial).
História da noz-moscada: Plínio, o Velho, mencionava uma árvore da qual se podiam extrair as duas especiarias que são a moscada e o macis (que é, de certa forma, o «cordão umbilical» da noz-moscada). A moscada perfumava os vinhos e as cervejas no século XII. Durante muito tempo, o seu cultivo permaneceu monopólio dos Holandeses, nas ilhas Molucas.
Segundo um ditado, roubar uma noz-moscada significava morrer antes de a ter plantado. Aquando da colonização, por volta de 1800, a França apoderou-se dos tesouros holandeses, e a moscada foi assim enviada para colónias britânicas tropicais, onde se aprendeu, graças a Pierre Poivre, a cultivar esta especiaria. A moscada está muito frequentemente associada ao amor e à beleza.
Cultura e colheita: Da família das Miristicáceas, a noz-moscada provém da moscadeira, árvore tropical que pode atingir 7 metros de altura, encontrada facilmente na Indonésia, na Malásia, no Sri Lanka, nas ilhas Molucas ou ainda nas Antilhas. São necessários sete anos para obter uma colheita, e são precisos 5 kg de noz-moscada para obter 1 kg de macis.
A colheita destes frutos realiza-se três vezes por ano (são diretamente vareados, não sendo necessário esperar que caiam naturalmente).
Propriedades: Esta especiaria possui grandes virtudes para a digestão, a epilepsia ou como antissético. Faz parte das famosas «Quatro Especiarias» utilizadas na cozinha para acrescentar sabor a um prato. Possui também um poder alucinogéneo e é por vezes utilizada como droga, sendo de fácil acesso e pouco dispendiosa.
No Renascimento, Fernel estava convicto de que a noz-moscada estimulava poderosamente o corpo e o espírito. Assim, até ao século XVIII, 24 preparações à base de noz-moscada estavam inscritas no Codex 1758 pelos boticários.
O Eugenol, o metil-eugenol e o iso-eugenol são moléculas que se encontram no cravinho-da-índia e na noz-moscada. Todas estas moléculas são limitadas, ou mesmo proibidas, pelas normas da IFRA (International Fragrance Association). Encontram-se de forma natural na essência de Ylang Ylang e de Rosa.
Descrição olfativa: A sua nota especiada, seca, quente e profunda pode evocar uma nota de couro, um lado canforado medicinal, uma faceta de cravinho-da-índia e igualmente uma nota terrosa.
A noz-moscada encontra-se em alguns perfumes, tais como:
- Pour L’Homme Cacharel
- Vétiver Guerlain
- Opium pour Homme YSL
- Tubéreuse Criminelle Serge Lutens
A Canela
Da família das Lauráceas, a caneleira de Ceilão é uma árvore de 10 a 15 metros de altura. A sua casca é colhida na estação das chuvas para produzir a especiaria. A canela é essencialmente cultivada no Sri Lanka, nas Seychelles e em Madagáscar. A caneleira do Sri Lanka é a variedade mais apreciada, devido ao seu caráter suave e adocicado.
História: A canela é a mais antiga das especiarias. Já utilizada 5 000 anos a.C. na China, era considerada ainda mais preciosa do que o ouro. Encontram-se, aliás, referências à canela na Bíblia.
Tratamento: A essência de canela obtém-se pela destilação a vapor de água da casca, que permite obter um líquido límpido, de cor vermelha escura. É igualmente possível fabricar óleo essencial a partir das folhas, obtendo-se um aroma especiado que recorda o do eugenol.
Descrição Olfativa: A canela é especiada e balsâmica. Trata-se de uma nota muito amadeirada, ligeiramente adocicada e abaunilhada. É quente, balsâmica, potente e próxima do cravinho-da-índia. Viva e sensual, esta especiaria é igualmente empolvada, apimentada e simultaneamente redonda na sua evolução. O seu aroma picante evoca o chá especiado e os biscoitos preparados nas festas de Natal.
Utilização: A canela é também utilizada na reconstituição de facetas florais como a rosa, o jacinto, o lírio-do-vale ou ainda o cravo e o lírio. Pode igualmente servir para reforçar certas notas (tais como as notas balsâmicas) nos perfumes fougère ou orientais. Pode ser utilizada nas notas de coração (estabelecendo frequentemente a ligação com as notas de fundo).
Propriedades: Os antioxidantes presentes na canela possuem propriedades anti-inflamatórias que podem prevenir ou atenuar a artrose assim como as doenças cardiovasculares. Esta especiaria é rica em aldeído cinâmico, que atua como um poderoso antibacteriano, antiviral, antifúngico e antiparasitário de largo espectro. Além disso, a canela permite estimular o sistema imunitário.
Entre os perfumes compostos com canela, podemos citar:
- Opium Yves Saint Laurent
- Égoïste Chanel
- Rousse Serge Lutens
- Black Orchid Tom Ford
- Noël au Balcon Etat Libre d’Orange
- Dolce Vita Dior
- L’Eau Lente Diptyque
A Pimenta
A pimenta-preta, branca e a pimenta-verde não provêm de variedades diferentes, mas correspondem a graus de maturação distintos. Estes grãos de pimenta provêm todos do mesmo arbusto: o Piper Nigrum. O consumo de pimenta é tal que é hoje equivalente ao consumo de todas as outras especiarias reunidas. A nota de pimenta é muito utilizada em perfumaria.
Encontra-se nomeadamente em:
- Poivre Noir Caron
- Parfum Sacré Caron
O Açafrão
Proveniente do pistilo de uma variedade de croco, trata-se da especiaria mais cara do mundo. Apelidada de «ouro vermelho», a sua utilização é muito limitada em perfumaria, ou mesmo proibida, pois contém safrol, um componente alergénico. Um substituto, chamado safranal, é atualmente utilizado. Confere uma nota de couro, especiada e muito potente, encontrando-se nomeadamente nos perfumes à base de Oud e nas perfumarias do Médio Oriente.
Eis alguns exemplos de perfumes que contêm safranal:
- Safran troublant L’Artisan Parfumeur
- Saffron Jo Malone
- Black Saffron Byredo
As Bagas de Pimenta-da-jamaica
Esta matéria-prima provém das Antilhas, e principalmente da Jamaica. As folhas são tratadas por destilação, dando origem à «pimenta-folha». As bagas tratadas permitem obter um produto chamado «pimenta-das-bagas». Possuem um perfume especiado, quente e complexo, que se situa entre a noz-moscada, o cravinho-da-índia e a canela.
Estes perfumes foram criados com bagas de pimenta-da-jamaica:
- Mitsouko Guerlain
- Piment Brûlant L’Artisan Parfumeur
As outras especiarias
Existem algumas especiarias mais confidenciais utilizadas em perfumaria:
- O alcaravia, que exige um profundo domínio por parte do perfumista.
- O cominhos, uma especiaria apreciada por Edmond Roudnitska, que a utilizou em Femme de Rochas.
- O cravinho-da-índia, cujo aroma permitiu, juntamente com a rosa, criar a nota «cravo» presente em Coco de Chanel, Opium de YSL, Aromatics Elixir de Clinique, Miss de Dior, Tam Dao de Diptyque, Florentina de Delacourte Paris.
Eis alguns perfumes que contêm uma mistura de especiarias:
- Noir épices Frédéric Malle
- Paprika Brasil Hermès
- Épices Marines Hermès
- Voyage Hermès
- Bois d’Arménie Guerlain