Porque é que já não sinto o meu perfume? (O mistério da habituação)
Esta é uma história que ouço frequentemente e que gera uma grande frustração. É fiel ao seu perfume há anos, é a sua assinatura, o seu «selo olfativo». As pessoas à sua volta reconhecem-no no instante em que entra numa sala, elogiam-no, dizem-lhe «cheira a ti!». Este perfume conta a sua história, faz parte do seu património íntimo.
E, no entanto, uma manhã, o drama: já não se sente. Por mais que vaporize, uma e outra vez, o aroma parece desvanecer-se instantaneamente. Pensa então que a fórmula mudou ou que o perfume já não dura. Fique tranquilo: o problema não está no frasco, mas num mecanismo fascinante do seu cérebro.
1. O fenómeno da adaptação olfativa
Se recebe elogios apesar de ter a impressão de não usar nada, é, na realidade… uma excelente notícia! Isso significa que o seu perfume está perfeitamente associado à sua pele.
Este fenómeno chama-se habituação ou adaptação olfativa. Trata-se de um reflexo de sobrevivência arcaico. O nosso cérebro está programado para nos alertar dos perigos (um cheiro a fumo, um alimento estragado). Uma vez que analisou um odor como «familiar» e «não perigoso», decide deixar de o processar para se manter disponível para novas informações.
Em resumo: o seu cérebro decidiu que o seu perfume fazia parte de si. «Desligou-o» para melhor sentir o resto do mundo. É frustrante, mas é a prova de uma osmose perfeita.
2. A armadilha do excesso
Perante este silêncio olfativo, a tentação é grande de duplicar, ou até triplicar a dose. Atenção: esta é a armadilha.
Arrisca-se a incomodar as pessoas à sua volta sem se aperceber. Continua sem se sentir, mas os seus colegas ou familiares sofrem uma saturação. O perfume deve permanecer uma carícia, não uma invasão.
3. A solução: O «Perfume Parêntese»
Pode sentir-se tentado a mudar radicalmente de assinatura. Cuidado, este é frequentemente um caminho repleto de obstáculos! É muito difícil encontrar uma fragrância que tenha tanto valor aos seus olhos. Além disso, as pessoas à sua volta podem reagir mal: «Já não te reconheço», «Porque mudaste?», «Era melhor antes».
O meu conselho de especialista para «quebrar» esta habituação sem se divorciar do seu perfume favorito? A infidelidade temporária.
Adote aquilo a que chamo um «perfume parêntese». Durante alguns dias ou uma semana:
- Use uma Eau Fraîche ou uma Cologne (notas hesperidadas muito voláteis que «limpam» o nariz).
- Alterne com um perfume de uma família olfativa oposta.
- Ou faça simplesmente uma pausa de alguns dias sem perfume (o fim de semana, por exemplo).
Ao privar o seu cérebro do seu aroma habitual, vai «reiniciar» os seus recetores. No dia em que regressar aos seus primeiros amores, vai redescobri-lo com a mesma emoção do primeiro dia.
4. As dicas para «despertar» o seu rasto
Se não deseja fazer uma pausa, pode otimizar a difusão para surpreender novamente o seu nariz:
- O tecido em vez da pele: Perfume as suas roupas ou um lenço. As fibras retêm os aromas de forma diferente da pele.
- A dica do algodão: Como mencionei no meu artigo sobre as dicas para fazer o perfume durar, coloque um algodão perfumado no seu soutien. O calor vai difundir os eflúvios em direção ao seu nariz de forma intermitente.
- O layering: Utilize o creme corporal da sua gama, ou adicione algumas vaporizações do seu perfume num creme neutro na palma da mão (veja o nosso artigo sobre o layering).
- Aumente a concentração: Se usa a Eau de Toilette, passe para a Eau de Parfum ou para o Extrato, se existir. A estrutura mais densa será percebida de forma diferente.
5. Quando o nariz faz greve: Anosmia e Hormonas
Por vezes, a causa é fisiológica. Não se trata de habituação, mas de uma diminuição real do olfato (anosmia parcial):
- O clima: No inverno, o frio anestesia os recetores olfativos. Sentimos menos bem.
- As hormonas: O olfato, particularmente na mulher, não é estável. Flutua segundo o ciclo hormonal. Não sentimos da mesma forma no início ou a meio do ciclo.
- A saúde: Uma constipação, uma gripe ou uma alergia que «entope» o nariz reduzem drasticamente a perceção.
Nota importante: Uma anosmia total e súbita (perda completa do olfato) é rara e ocorre frequentemente após um choque viral (como a Covid) ou traumático. Se persistir, consulte um otorrinolaringologista.
6. O teste dos «Dragibus»: A ligação Paladar-Olfato
Para compreender até que ponto o seu nariz é essencial, faça esta experiência divertida:
Pegue num rebuçado de fruta (tipo Dragibus) e coma-o tapando o nariz (ou com uma mola de natação). Apenas sentirá o «doce». Nenhum sabor a morango ou limão.
Liberte o nariz continuando a mastigar: de repente, o aroma explode na boca! É o que se chama retro-olfação.
Isto recorda-nos uma lição essencial: reserve tempo para fechar os olhos e respirar o que come ou o que usa. A consciência desperta os sentidos.



